19 de dezembro de 2012

Contos e Prosas - apresenta a criação de:


Paraíso

Olhava à sua volta como se lhe faltasse o eco da dor, sufocado por aquelas quatro paredes brancas. E, em pezinhos de lã, arrastava o corpo combalido, anulando por instantes a existência. A noite aproximava-se como uma farpa.
Sentada sobre um pufe negro que ali lhe fora colocado propositadamente para aliviar o peso da tortura, a rapariga deixava-se enterrar até ao último desejo. Tinha quase as medidas perfeitas, era só manter a boca fechada mais nove ou doze dias e ninguém a iria parar. A porta do sonho estava semiaberta, um pequeno toque e era vê-la nas luzes da ribalta a compilar sucessos. Afinal, de que valia o céu sem as estrelas? De que valia a vida sem aquele brilho intenso, capaz de ofuscar o olhar mais distraído?
Permanecera durante longos meses sob a luz coruscante do seu sonho e nem a exalação do corpo, causada pelo calor tórrido da obsessão, a fez demover um só milímetro.
Os dias foram passando e a mãe, embriagada pelo pavor do último momento, corria freneticamente em busca da última poção mágica capaz de a arrancar daquele inferno. Para amenizar a dor e depositar ali uma réstia de esperança, perdia-se em pensamentos absortos que lhe traziam o último fôlego da alma. Vinha-lhe à memória a famosa viagem de Dante e pensava que também ela teria direito a um outro reino.
— Que Deus teria a coragem de aprisionar ali um seu discípulo? - perdia-se em pequenas questiúnculas que a levavam sempre ao mesmo ponto de encontro, as paredes brancas onde paulatinamente via estancar a última gota de sangue que um dia ofertara a esse Deus de quem agora duvidava. Recusava-se, porém, a desmistificar a tragédia que assolara à sua vida. Tinha medo de pronunciar as palavras, como se elas pudessem vingar-se dessa ousadia. Quando alguém lhe perguntava pela filha, remetia-se, momentaneamente, ao silêncio e, depois de muito cogitar, dizia:
— A minha filha, graças a Deus, está bem. Só anda com um bocadinho de falta de apetite, mas isso talvez seja do calor ou de outra coisa qualquer que a preocupa… sabe como são os jovens.
As últimas palavras, tolhidas pelos soluços estrangulados na garganta, tornavam-se quase inaudíveis. Depois, voltava o silêncio e o frenesim de imagens que lhe invadiam a alma. Não suportava este interrogatório que, como um agoiro, teimava em piar ao seu ouvido. Enterrava-lhe antecipadamente a derradeira esperança. Via nele reflectido o corpo semimorto da filha que deixara naquelas quatro paredes, e, entre o amor e a raiva, questionava-se:
— Onde foi que eu errei? Que posso agora fazer para remediar o mal?
Ficava horas afundada naquela confusão de sentimentos. Até que, para enganar a dor, repetia silenciosamente as últimas palavras que ouvira da filha.
— Mãe, não achas que estás a exagerar? Repara, ainda há muita carne no meu corpo. Eu sei, mãe, que não posso chegar ao limite, mas também ainda estou muito longe. – era com estas palavras que vendava a alma, rasgava as trevas irrespiráveis e pendurava a esperança na nesga de luz que só os seus olhos vislumbravam. Concentrava a sua vontade neste desabafo. Sabia que, sob pena de encalhar na verdade, teria de permanecer adormecida. Não podia ver a filha a entregar assim o seu império. Não tinha forças para apanhar os escombros.
E, entre verdades e sonhos, chegou a noite. Trazia o semblante carregado de pequenos farrapos negros. Aproximava-se um pavoroso temporal. De nada lhe valia abrir os olhos, já só a imagem do Paraíso podia consolar aquela dor.

Maria da Fonte
Direitos Autorais Reservados ®

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18 comentários:

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Lindo Maria da Fonte!Não podemos ir contra os designios de Deus!Todos nós iremos passar por esses momentos só que uma mãe jamais quer ver um filho sofrendo,ela ora para que as dores de um filho sejam passadas à si própria.Parabéns!Logo estarei visitando seu espaço que deve ser encantador.

Bjs.
Carmen Lúcia

Dorli disse...

Oi Maria da Fonte
Como uma mãe sofre vendo sua filha, dia após sumindo dos seus olhos. Quantas jovenzinhas sofrem com esse mal...E quantas morrem também.
A vida é um desígnio de Deus e cada uma busca para si o que lhe parece mais aprazível.
Lindo conto
Parabéns
Lua Singular

Sónia M. disse...

Excelente conto!
Parabéns Maria da Fonte!

Deixo um beijo
Sónia

POR TODA MINHA VIDA disse...

Maria Querida Magnífico conto ...especialmente em tocar em tão delicado e verdadeiro tema ...os filhos que se perdem para a vida ...Saibamos na fé sobreviver e vencer os embates ...Meus sinceros parabéns Pedro Pugliese

Dídimo Gusmão disse...

Maria,

Parabéns pelo belo conto!
A anorexia é um problema mas comum do que imaginamos. Devemos a todo instante, prestar atenção a nossa volta, pois tem sempre alguém precisando de uma palavra amiga.
Abraços literários.
http://didimogusmao.blogspot.com.br/

*Escritora de Artes* disse...

Olá,

Um conto dramático, tocante e belo..

Abçs

MARIA MACHADO disse...

Muito lindo... Maria da Fonte! É uma bela histórias que a cada dia se agrava no mundo inteiro,é triste mais é uma realidade. Maria, seu conto está de parabéns, por abordar um assunto dessa natureza.Parabéns! Maria, vou segui-lo porque adorei seu conto, vou te ler, sempre que puder.uM ABRAÇO
Maria Machado

Lu Nogfer disse...

Um conto muito bem escrito que traz a tona um problema serio que necessita de grande atençao!

Parabens a autora!

Abraços!


Pedro Luis López Pérez (PL.LP) disse...

Un cuento actual y dramático sobre una Realidad que oprime y deprime.
Um abraço.

Nádia Santos disse...

Maria querida que relato triste e trágico de uma mãe diante do flagelo de um filho, vê-la sucumbir e não poder fazer nada, deve ser algo terrível que vc descreveu lindamente. Parabéns querida.

MARIA DA FONTE disse...

Amigos, muito obrigada a todos pelo vosso carinho.
Tenham um feliz Natal.
Abraços

Marli Franco disse...

Maria um momento especial conhecer tua criação.
Um conto intenso e criativo!
um beijo de violetas

Bento Sales disse...

Olá, amiga Maria da Fonte!
Teu conto é muito emocionante com tema oportuno e é muito bem escrito com ótima narrativa, linguagem culta e rebuscada. A ortografia é admirável.
Uma verdadeira mãe faz tudo que é possível entre o céu e a Terra para salvar um filho.
Teu precioso conto embelezou sobremaneira este evento indelével do amigo Viviani!

Abraços a ambos.

Rosa Mattos disse...

Uma narrativa muito bem criada, com metáforas ótimas, como essa: "A noite aproximava-se como uma farpa." \o/

Parabéns! Tens um estilo de escrita que me encanta.

Janete Sales (Dany) disse...

Muito lindo o teu conto Maria da Fonte, meus parabéns pelo escrito que acontece em tantos lares hoje em dia, ver um filho, uma filha sofrer...seja por qualquer disturbio é realmente estarrecedor!

Meus aplausos pela forma na qual abordou este tema!

Um abraço a todos!

elvira carvalho disse...

Excelente conto amiga. A anorexia anda quase sempre associada aos sonhos de estrelato e de passarela. É uma doença que muitas vezes leva à morte fisica da pessoa que dela sofre, mas por vezes leva à morte moral de toda uma família.
Infelizmente uma realidade dos nossos tempos.
Um abraço e tudo de bom para si

Isa Lisboa disse...

É um conto triste, mas que precisa ser contado, pois é bem real... Uma realidade descrita com muita sensibilidade, com palavras que não nos deixam indiferentes! Parabéns pela participação!

Deixo-te também os meus desejos de Boas Festas, e a Viviani e a todos os leitores dos Contos e Prosas!

Abraço

Bia Hain disse...

Maria, mais que um conto, seu texto é um alerta sobre o quanto a busca pela vaidade pode ser perigosa! Parabéns, um abraço!