7 de dezembro de 2012

Contos e Prosas - apresenta a criação de:



Preta, pobre e feia.

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Moças e Rapazes de 16 a  25
anos, p/panfletagem. Tratar: Av.
Cairu 1084/308. POA dia 19/03.
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– Bah... Essa tá fudida... Preta, pobre e feia...
Um gargalhada estrondosa e homérica escapou por entre os lábios apertados de Silvânia, que, diga-se a verdade, até tentou ser discreta diante daquele comentário. Nilson, o gerente, era um debochado, todos funcionários da Cairu Empréstimos Ltda. o sabiam. Contudo, durante aquela seleção de candidatos fez-se evidente a sua verdadeira índole.
Diante de ambos, apresentava-se o antepenúltimo candidato que conseguira retirar a senha para a entrevista. O Citzen na parede marcava já doze horas e dez minutos. A empresa, apenas mais uma no ramo de agiotagem, buscava dois novos profissionais para contratação imediata, visto a recente inauguração da primeira filial, situada no limite norte do próprio bairro. 
O serviço de panfletagem seria, na verdade, apenas um estágio de duas semanas e seis dias, que conduziria os selecionados ao quadro efetivo de funcionários da Cairu.
Nilson era o único filho do ex-deputado Ornella Hutzler, um viúvo alegre que acumulou, com alguns méritos, em sete mandatos consecutivos, um patrimônio que permitia a ele a aos seus uma tranquila condição financeira, bem como algumas excentricidades.
A falecida Sra. Iria Hutzler fora a católica mais convicta da família e tentara consagrar o coração do filho a São Lázaro, presenteando-o com uma medalhinha de ouro, relíquia do santo. Misteriosamente, o adorno acabou causando-lhe alergias no pescoço, semelhantes a marcas de açoite. O flagelo foi encarado por ela como sinistro presságio do destino que aguardava o seu rebento na vida além-túmulo. Contudo, depois de frustradas tentativas, a velha desistiu de querer incutir-lhe o Evangelho. Decepcionada, guardou a correntinha de metal precioso no baú de relíquias, mantido até os dias de hoje no cofre do deputado, atrás do quadro de Portinari, no quarto do casal.
A mocinha afrodescendente, com certeza, não ouviu a sentença em tom de murmúrio proferida a seu respeito. Porém foi-lhe impossível ignorar o riso daquela rapariga no momento em que cruzou, cheia de esperanças, o umbral da sala 308. Na peça não havia qualquer mobília, exceto as três cadeiras pretas acolchoadas e com braços. A primeira vazia, plantada em frente à janela na parede dos fundos e envolta pela escassa claridade daquele dia cinza. As outras duas, logo em frente, na penumbra, ocupadas por Sivânia e seu chefe. Enquanto ela, a cada novo candidato, rabiscava anotações em uma folha presa à sua prancheta de madeira, ele limitava-se a formular breves perguntas informais e esquadrinhá-los com o olhar.
A jovem sentou-se e preencheu a Ficha, já bastante desanimada pela recepção que tivera. Suas roupas eram um pouco desbotadas pelo tempo e o tênis descolara na parte de trás durante os quilômetros de percurso a pé que fizera desde o Terminal de Ônibus do Mercado Público.
Faltava-lhe apenas um ano para concluir o Ensino Médio. O pai, desempregado, andava pressionando-a demais:
— Vai à luta, tchê... As minhas irmãs com a tua idádi já trabalhavam... Só istudá não dá... Tu não é filha di rico.
***
— Qualquer coisa a genti liga pra êsse teu telefoni di contato, tá? Por enquanto tâmo só fazendo cadastro...
— Tá, então tá bom.                     

Cesar Soares Farias
Direitos Autorais Reservados ®

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14 comentários:

Dorli disse...

Olá Cesar
Seu conto é simples, objetivo e verdadeiro.
Essa jovem preta, pobre e feia está "fudida" mesmo no campo de trabalho. Infelizmente o racismo toma conta de toda a humanidade sobrando para os negro, pobres e feios trabalhos subalternos tais como: varredor de rua, lixeiro, catador de sucata, mas existem aqueles que não desistem de seu ideal, de ser alguém de dar inveja aos outros. Conheço um homem negro, mas da cor do carvão, que cortava cana sol a sol e a noite frequentava uma faculdade particular. Queria ser advogado e hoje, para toda a cidade onde mora é um dos melhores advogados da cidade.
A discriminação não é só com os negros, pobres e feios. Há também a dos nordestinos, deficientes físicos, indígenas, idosos, etc...
Só há um consolo para toda a humanidade: Muitos serão discriminados quando envelhecerem e que não digam: eu adoro meus velhinhos. Mentira.
Adorei seu conto, pois ele retrata uma realidade viva da humanidade.
Parabéns, com louvor.
Vou à tarde conhecer seu blog
Beijos
Lua Singular

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Parabéns César,por abordar um assunto muito importante.Infelizmente ainda há pessoas racistas e que não veêm que a cor da pele não importa e sim o que vai dentro d'alma.
Adorei seu conto e farei uma visita ao seu blog.
Abraços.
Carmen Lúcia

Ghost e Bindi disse...

Cesar, houve um tempo em que diziam que pessoas negras não tinha alma, por isso tratavam negros como animais.
Hoje sabemos que até os animais devem ser respeitados por todos nós, pois diante da criação são tb nossos irmãos, mas o mais importante é sabermos que para nascer com a pele negra tem que ser uma grande alma, para poder suportar a ignorância de bossais que se acham pessoas humanas.

Parabéns amigo.

Ghost e Bindi

Patricia Galis disse...

Parabéns Cesar infelizmente tratou a pura realidade.

MARIA MACHADO disse...

Parabéns Cersar,você foi formidável, retratou uma realidade que ainda existe, por mais que o tempo passe,sempre há discriminação!!!
Gostei muito.
Abraços!
Maria Machado

Verinha Portella disse...

Cezar ,querido poeta!

Foste corajoso o suficiente para narrar nossa realdidade medíocre.

um beijo e parabens
vera portella

Mary disse...

Olá Cesar!
Infelizmente o preconceito é algo terrível.
Nem adianta criar leis Anti-racismo ou ensinar desde pequeno no colégio, pq o preconceito está na cabeça das pessoas.

Parabéns por abordar esse assunto.


É minha humilde opinião!




Nádia Santos disse...

Sem meias palavras o descreveu uma realidade... que a muito perdura, diga-se de passagem... Parabéns e sucesso César!

elvira carvalho disse...

Na minha opinião, uma das funções da literatura é também alertar para as injustiças da vida. O seu conto cumpre na perfeição essa função. Sabemos todos que apesar de muito que ultimamente se evoluiu em relação ao racismo, estamos muito longe de conseguir erradicá-lo. Gostei muito do seu conto.
Um abraço e bom fim de semana.

Bom fim de semana também para si J.r. Viviani.

Lu Nogfer disse...

REALIDADE!!!
A discrimnaçao esta pr toda parte.

Parabens Cesar pela belissima participaçao.

Abraços

VIVENDO A VIDA ASSIM... disse...

PREZADO CESAR, GOSTEI DO TEXTO E DA MANEIRA COMO O ESCREVES, BEM DESPOJADO E RETRATANDO UMA REALIDADE AINDA E INFELIZMENTE COMUM NOS NOSSOS DIAS. VISITAREI O TEU ESPAÇO E SE QUISERES ME VISITE TAMBÉM. ABRAÇOS, SUZANA. (www.sfersete.blogspot.com.br - VIVENDO A VIDA ASSIM,,,)

Bento Sales disse...

Olá, amiga César!
Seu conto está muito bem escrito e narrado e aborda um tema muito oportuno, que é o racismo implícito, não só étnico, mas também econômico.
Parabéns pelo sua esplendorosa participação neste evento espetacular engendrado pelo amigo Viviani!

Abraços.

Janete Sales -Dany disse...

Meus parabéns pelo conto!
Este é um assunto que nunca deve ser esquecido, porque o preconceito existe e deve ser varrido da face da terra!
Meus aplausos pelas belas linhas,
e por abordar um assunto tão importante!

Um grande abraço!

VILMA PIVA disse...

Olá Cesar, a realidade é dura e preconceituosa de verdade. No teu conto você mostra muito bem isso tudo! Parabéns!! Beijos!!